Artigo: O Problema Não é a Falta de Dados. É o Que (Não) Fazemos com Eles! – ABAM

Artigo: O Problema Não é a Falta de Dados. É o Que (Não) Fazemos com Eles!

29 abr 2026
Eduardo Ramos Loureiro¹
Artur Mattos²

Sem análise, os dados permanecem inertes; é a análise que lhes dá valor. A afirmação soa quase trivial — intuitiva a ponto de parecer óbvia —, mas sua aplicação concreta no cotidiano das organizações, especialmente nas administrações tributárias, revela-se tudo menos simples. Mais do que isso: a incapacidade de transformar dados em inteligência constitui hoje o principal fator limitante da eficiência das administrações tributárias contemporâneas.

Na prática, ainda é comum confundir o acúmulo de dados com a produção de conhecimento e investir pesadamente em sistemas de informação sem o correspondente investimento na formação de pessoas aptas a formular boas perguntas, interpretar resultados e transformar evidências em decisões. Esse equívoco não é meramente operacional, mas estrutural: revela uma administração tributária ainda ancorada em paradigmas burocráticos.

No ambiente tributário contemporâneo, a simples acumulação de grandes volumes de dados fiscais, cadastrais, financeiros e transacionais não gera, por si só, melhoria na arrecadação, na conformidade fiscal ou na gestão tributária. Trata-se, portanto, de uma verdadeira mudança de paradigma: da administração tributária reativa para uma administração tributária preditiva e orientada por evidências.

A construção do pensamento analítico orientado a dados passa a ser atribuição imperativa aos membros das administrações tributárias. Essa mentalidade aproxima a atuação fiscal de um método científico aplicado.

Servidores e gestores devem ser curiosos, pensar criticamente e ser criativos. Sem essas competências, a abundância de dados tende a produzir apenas uma ilusão de controle.

A maturidade analítica das administrações tributárias pode ser compreendida a partir de uma progressão funcional das capacidades de análise de dados.

a) Análise descritiva: organiza e apresenta dados históricos que, embora sofisticados em aparência, frequentemente carecem de utilidade decisória concreta.

b) Análise diagnóstica: busca compreender causas dos fenômenos. aproximando a atividade fiscal de um modelo explicativo, e não meramente descritivo.

c) Análise preditiva: projeta cenários futuros. inclusive riscos regulatórios e comportamentais decorrentes da adaptação dos contribuintes.

d) Análise prescritiva: sugere cursos ótimos de ação com redução de custos operacionais e aumento da efetividade das ações fiscais.

Dados são fatos; informação exige contexto; conhecimento gera significado e a inteligência institucional emerge da capacidade de transformar conhecimento em ação estratégica.

Portanto, no âmbito da nova administração tributária, essa abordagem representa uma mudança cultural. Não se trata de uma escolha tecnológica, mas de uma exigência institucional.

Em última análise, a vantagem competitiva das administrações tributárias não estará na quantidade de dados, mas na qualidade das perguntas que são capazes de fazer.

Referências

LOUREIRO, Eduardo Ramos; MATTOS, Artur. Da Multa ao Diálogo: Caminhos para uma Administração Tributária Baseada em Dados. ABAM. 2025. MORROW, Jordan. Seja um Analista de Dados: Como Usar a Análise para Transformar Dados em Valor. Alta Books, 2024.

¹ Gerente de Fiscalização e Administração Tributária da Secretaria da Fazenda de Aracruz (ES). Integra o Conselho Técnico das Administrações Tributárias (CTAT), participando dos GTs 04 (Arrecadação) e 07 (Operacionalização de Dados), além do SubGT 8.1 (Tecnologia). Também é membro do grupo de normas do Comitê Gestor da NFS-e. Ao longo da carreira, foi reconhecido no Prêmio do Tesouro Nacional, obtendo o segundo lugar na categoria Solução Fiscal em sua 28ª edição. Recebeu também o Prêmio Espírito Santo de Economia, foi duas vezes finalista do Prêmio INOVES do Governo do Estado do Espírito Santo e premiado no Prêmio Boas Práticas Senador Gerson Camata, na categoria Finanças Municipais. Programador culposo por circunstância, analista de dados por opção.

² Auditor Fiscal aposentado do Município de Salvador, com sólida trajetória na administração tributária municipal e ampla experiência na área fiscal. Atua como Consultor Sênior na Unidade de Projetos da Fundação Getúlio Vargas, contribuindo para o desenvolvimento de soluções estratégicas voltadas à gestão pública. É palestrante reconhecido nacionalmente, participando de eventos e seminários sobre tributação, finanças públicas e inovação no setor público. Atua na docência em cursos de pós-graduação, formando profissionais nas áreas fiscal e de gestão. E, também, integrou o Grupo de Trabalho (GT 14) da Reforma Tributária.

RELATED POST

NEWSLETTER

Digite seu e-mail e receba nossas novidades:

    abril 2026
    D S T Q Q S S
     1234
    567891011
    12131415161718
    19202122232425
    2627282930